[PERFIL] Janine van Wyk: capitã da seleção, recordista e dona de time

A África do Sul celebra o Dia das Mulheres em 9 de agosto. Um feriado nacional, o que mostra a importância dessa data. Aproveitando o gancho, decidi fazer um post sobre Janine van Wyk. Você pode até não saber nada sobre a capitã da seleção de sul-africana de futebol, mas acredite: ela é uma das personagens mais interessantes do esporte daquele país.

Capitã da seleção, Janine fundou um dos clubes mais fortes da África do Sul e ajuda a formar talentos no futebol feminino

Para mim, é sempre difícil saber por onde começo a contar a história de Janine van Wyk. Tudo porque o perfil da ex-zagueira do Houston Dash apresenta dois dados bem marcantes. O primeiro é o fato de ter fundado o JvW FC, um dos clubes mais fortes do país e importante formador de jogadoras do futebol local. O outro destaque é seu recorde de participações pela equipe nacional. Até junho de 2019, foram 166 partidas. Ninguém, nem na seleção masculina, jogou tanto.

Esses foram dois dos tópicos que abordei em uma entrevista que ela me concedeu por e-mail em 2016. Além disso, perguntei sobre o duelo com Marta, já que Brasil e África do Sul se enfrentariam meses depois pelos Jogos Olímpicos.

Janine Futebol Clube

Se você acha que o futebol feminino ganha pouca atenção no Brasil, o cenário na África do Sul não é muito diferente. Ainda assim, há uma liga nacional bancada pela principal petrolífera do país. A competição reúne 144 times, 16 em cada uma das nove províncias. As campeãs avançam para a fase final, que define a grande vencedora da temporada.

Em 2016, o JvW alcançou o inédito título regional em Gauteng e chegou à final nacional. Com Janine atuando de jogadora-capitã-técnica, a equipe de Joanesburgo perdeu para as meninas do Bloemfontein Celtic por 1 a 0 em Mossel Bay.

JvW FC (África do Sul)

Apesar da derrota, aquele foi o ponto alto do time fundado em 2013 por van Wyk, quando ela tinha 26 anos. Segundo a zagueira, essa foi a forma que ela encontrou para evitar que os talentos que surgiam no país fossem desperdiçados.

“Percebi o enorme talento que temos na África do Sul e que nada estava sendo feito para desenvolvê-lo. Por isso, fundei a JvW Girls Football Development (desenvolvimento de futebol para garotas, em tradução livre) e o JvW FC para dar a essas talentosas meninas a oportunidade de alcançar seus sonhos, desenvolvendo-se no esporte que amam”, contou.

Entre esses talentos, quem vem pedindo passagem é a meia Gabriela Salgado. Artilheira do time na atual temporada, passou pelo sub-20 da África do Sul e agora faz parte da seleção principal. Aliás, a última convocação das Banyana Banyana (as meninas, em tradução livre) contou com Gaby e outros quatro nomes do JvW.

Banyana Banyana

As participações nos Jogos Olímpicos de Londres e Rio foram os pontos altos do futebol feminino da África do Sul. Van Wyk esteve presente nas duas oportunidades. Contudo, a equipe teve desempenho discreto – e idêntico – em ambas: duas derrotas e um empate em cada.

África do Sul x Brasil, Rio 2016 (Foto: SAFA)

Já o melhor momento olímpico das Banyana Banyana foi a terceira rodada da fase de grupos no Rio 2016. Jogando no calor de Manaus, as sul-africanas seguraram o empate em 0 a 0 com o Brasil. A imagem daquela partida que acabou viralizando foi a de Nothando Vilakazi na barreira, protegendo a região abaixo da cintura. O que poucos lembram, no entanto, é da grande atuação de Janine, dificultando a vida de Marta e companhia.

Na época, a zagueira já era a recordista de jogos entre todas as seleções de futebol da África do Sul. Assim, os Jogos Olímpicos pareciam uma vitrine ideal para a atleta, que me contara em julho daquele ano que seu objetivo era se transferir para Europa ou Estados Unidos.

“Estou realmente interessada em jogar fora do país. É algo com que sonhei durante a minha vida toda. Então, espero fazer isso antes de me aposentar!”, revelou.

Felizmente, aquele sonho se realizou antes da aposentadoria. Bem antes. Apenas quatro meses após os Jogos Olímpicos. Em dezembro de 2016, van Wyk assinou um contrato com o Houston Dash, dos Estados Unidos.

No novo time, a zagueira logo fez amizade com três brasileiras – Poliana, Bruna Benites e Andressinha. Ainda que o idioma fosse uma barreira nesse começo. “Tudo que podemos fazer agora é sorrir umas para as outras”, admitiu em um post no seu Twitter oficial.

Quanto à vida de jogadora/dirigente, nada mudou. A cartola Janine delega tarefas desde os tempos de JvW. Assim, ela consegue focar no que acontece dentro das quatro linhas.

“Tenho a sorte de contar com pessoas bem capazes, que trabalham duro e têm muita paixão, e compartilham do mesmo objetivo. Eles cuidam da administração, o que me permite concentrar totalmente em jogar futebol”, contou na entrevista de 2016.

2018

O Houston renovou o contrato com Janine para a temporada 2018. A má notícia é que suas companheiras brasileiras deixaram o clube. Por outro lado, o Dash deu mais alguns passos para se tornar o clube mais sul-africano da liga americana. Afinal, o time do Texas contratou duas jogadoras que estiveram com as Banyana Banyana no Rio 2016: a meia Linda Mothalo e a atacante Thembi Kgatlana. Sem falar no acerto com a holandesa Vera Pauw, técnica da África do Sul entre 2014 e 2016.

Janine van Wyk - Houston Dash

Hoje, é impossível determinar se a seleção sul-africana se tornará uma potência do futebol. Certo mesmo é que van Wyk já deixou um tremendo legado para o esporte daquele país.

O maior símbolo de sua contribuição talvez seja justamente a passagem de Mothalo no Houston: a jogadora de 20 anos é cria do JvW. Atualmente no futebol chinês, a jovem foi capitã do sub-20 das Banyana Banyana. Por isso, dá pra supor que Janine já esteja preparando sua sucessora na liderança da seleção. Como dizem por aí, o futuro já começou.

Copa do Mundo

Em 2018, a seleção da África do Sul se classificou pela primeira vez para a Copa do Mundo. Além da vaga no Mundial da França, a campanha do vice-campeonato na Copa Africana de Nações rendeu à atacante Thembi Kgatlana o prêmio de melhor jogadora do continente. Por sua vez, a técnica Desiree Ellis foi eleita a melhor na sua função.

Para saber mais sobre as Banyana Banyana, confira o podcast “De Primeira” sobre o grupo B da Copa feminina. Eles me convidaram pra falar sobre o time e você pode me ouvir no vídeo abaixo.

Dia Nacional da Mulher

A África do Sul comemora o Dia Nacional da Mulher em 9 de agosto. O feriado tem origem em uma manifestação realizada nessa data, em 1956, na cidade de Pretória. Mulheres de todas as etnias marcharam até os Union Buildings lutando contra a exigência do passe para as negras. O documento funcionava como uma espécie de passaporte interno e restringia a sua circulação pelas áreas urbanas. Andar sem ele poderia acabar até em prisão. Veja mais detalhes nesse link do site do Governo da província de Western Cape.

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