Diário do intercâmbio: Xibom Bombom e a África do Sul

[POST ESCRITO DE UM TECLADO SEM ACENTOS]

“Um homem nao eh homem suficiente ate que ele tenha sua propria casa”. Esta frase de Nelson Mandela foi repetida umas duas vezes pelo guia durante a minha visita `a township de Imizamo Yethu, no ultimo domingo. Esta foi uma das paradas do city tour que fizemos em Cape Town.

Para quem nao sabe, townships sao guetos onde os negros ficavam confinados durante o apartheid. Eles nao podiam morar na cidade e, caso um branco/afrikaaner fosse visto por la, corria o risco de ser preso.

Imizamo Yethu tem uma diferenca em relacao `a maioria das comunidades: conta com a ajuda de entidades de Inglaterra e Irlanda. Estas pessoas ajudam na contrucao de casas, por exemplo.

Entretanto, a maioria das casas ainda eh nao eh de alvenaria. Alem disso, quem nao mora numa casa construida pelos ingleses e irlandeses, nao tem banheiro proprio. Logo, precisa recorrer a um sanitario coletivo.

Confesso que nao fiquei chocado com a pobreza do local. Apesar das dificuldades, todos tem energia eletrica e comida. Eh impossivel nao lembrar das favelas brasileiras. A ficha de que eu não estava no Brasil só caiu quando esbarrei numa BMW serie 3 em plena Imizamo Yethu.

Entre os outros fatos interessantes do local, esta a presenca de somalis como donos de vendinhas. Ja as lojas de consertos de produtos eletronicos (tv e “raptops”, por exemplo), pertencem a imigrantes asiaticos.

Senti um certo desconforto ao entrar nas casas das pessoas. Entrei em apenas uma, depois preferi ficar do lado de fora. Parecia um zoo, era como visitar a jaula de um animal exotico. Estranho. Alem disso, parecia que receber turistas era uma especie de preco que eles tinham que pagar apos terem ganho uma casa das entidades de ajuda.

Esconde-esconde

Imizamo Yethu fica a 15 minutos de uma area com vinicolas cheias de carros alemaes. No entanto, nao fica escondida por montes de terra, como a que vi outro dia, no caminho para Gansbaai.

Eh dificil esconder as townships. Cape Town tem cerca de 3 milhoes de habitantes, e metade vive nessas comunidades. Apesar de contarem com agua, comida e energia eletrica, algumas areas tendem a alagar durante a temporada de chuvas. E devido `as caracteristicas do solo, a agua pode demorar ate quatro meses para baixar.

O desemprego eh outro grande problema das townships. Segundo o guia do mergulho de tubaroes, a taxa na Africa do Sul eh de 25%. Ja nessas comunidades, o numero salta para 70%.

Pelo que vi ate aqui, a Africa do Sul apresenta uma desigualdade mais extrema que a do Brasil. Ao mesmo tempo em que voce ve dezenas de Audi TT nas areas nobres ou mais centrais, basta chegar `a rodoviaria para ver outra Cape Town. As ruas nao sao tao impecaveis e limpas, fedem a urina, ha mais pedintes e as vans estao caindo aos pedacos (e tocando pancadoes no volume maximo).

Eh curioso como tambem ha divisoes de guetos. Bo Kaap, a area onde moro, tem forte presenca muculmana. Ja os brancos ficam mais em Sea Point, Green Point e Camps Bay, areas lembram a orla do Rio (praias, esportes, ciclovia, bares). Conforme voce se afasta do Centro, encontra as townships e aquela quantidade enorme de barracos.

Nelson Mandela fez um grande trabalho ao unir o pais, mas ainda ha um longo caminho a percorrer. Que nao demore tanto, pois trata-se de um lugar incrivel, com enorme potencial.

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2 comentários

  1. Pedro,
    Eu imagino como foi a sensação de ver uma township de perto. Acho que o que mais impressiona são os comércios instalados dentro de contêiner, uma boa solução para reciclar esses produtos, mas que cria uma aura muito estranha em um bairro no meio da cidade. Pois essas pessoas ainda vivem isoladas da área urbana por falta de transporte ou mesmo de interesse de quem vive fora dos bairros mais pobres… Tenho certeza que essa experiência te ensinou muito mais coisas a respeito da cultura estabelecida entre os sul-africanos. Que a igualdade de raças permaneça quando Mandela já não estiver mais entre nós…
    Adorei o texto sem acentos. Teclados estrangeiros, tsc tsc 😉
    Um abraço,
    Débora

  2. Você disse tudo. É uma boa solução, mas é estranho…
    Visitando a township vc conhece mais da verdadeira África do Sul.
    Saudades! Isso aqui tá muito calmo sem vc!

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