Crise da água em Cape Town: muita calma nessa hora

O problema da água em Cape Town preocupou quem planejou ir pra lá em 2018 e as pessoas que têm carinho por aquele lugar. Como estranhei o tom da cobertura da crise hídrica por aqui, resolvi ouvir brasileiros que moram na África do Sul para conhecer suas percepções, e fazer um resumo sincero e sem histeria.

Brasileiros que moram na África do Sul falam sobre a crise da água em Cape Town

(post atualizado em 15/1/2019)

Para quem está longe, notícias negativas fazem a realidade de um lugar parecer muito pior do que é. Moro no Rio de Janeiro, sei que a coisa por aqui tá feia e imagino que, de fora, isso pareça a Terceira Guerra Mundial. Conheço bem o olhar de espanto das pessoas que perguntam sobre os problemas da minha cidade. Por isso, tenho pensado muito em quem se pautou apenas pelas matérias sobre a Cidade do Cabo que saíram na imprensa brasileira no início de 2018. Através delas, a pessoa pode achar que a seca transformou a Mother City um cenário de “Mad Max”.

Embora seja bem difícil falar sobre a situação da água em Cape Town sem estar lá, resolvi escrever um post tentando mostrar o ponto de vista dos moradores. Mais especificamente, os brasileiros que moram no Cabo. Após algumas entrevistas e leitura de artigos e comunicados de órgãos locais, concluí que:

– O nível dos reservatórios estava, sim, bem baixo. A Prefeitura enfatizava a necessidade de limitar o consumo diário a 50 litros por pessoa para evitar medidas drásticas.

– Boa parte da população está engajada e, segundo os brasileiros com quem conversei, tem sido possível se adaptar a esse dia a dia de economia de água em Cape Town.

– Os órgãos de Turismo garantem que a presença dos viajantes não representa perigo. Além disso, os visitantes são informados da situação e encorajados a “economizar água como os locais”.

– As mesmas entidades pedem que os turistas não mudem seus planos, ressaltando a importância do Turismo para a economia local. Só na província de Western Cape, onde fica Cape Town, o setor emprega mais de 300 mil pessoas.

– Chegaram a divulgar previsões para o temido “Dia Zero”, mas, no início de março, ele foi descartado. Ao menos, para este ano. Já no final de junho/2018, foi anunciado que não havia previsão para um Dia Z em 2019 também. As medidas que promovem o consumo inteligente de água, entretanto, foram mantidas.

O que vi em Cape Town

Fiz uma viagem de duas semanas a Cape Town em novembro de 2018. Saí de lá com duas conclusões:

1) a cidade soube reagir e a população manteve os cuidados, mesmo com a situação dos reservatórios melhorando;

2) a gente usa MUITA água no dia a dia, e reduzir um pouco o consumo não seria nenhuma tragédia.

Naqueles 17 dias, não passei perrengue em nenhum momento. Foi uma questão de adaptação. Banheiros de restaurantes e shoppings, por exemplo, seguem sem abrir todas as torneiras, mas disponibilizam higienizadores de mãos.

Por sua vez, o V&A Waterfront alterou o sistema de suas privadas para um semelhante ao utilizado em aviões. Segundo um aviso junto a seu botão, a nova descarga proporciona uma economia de 6 litros.

Já o hostel no qual me hospedei, o Never at Home, segue uma tendência que vi até em outras cidades do Western Cape, como Franschhoek e Paternoster, e espalhou diversos avisos reforçando a necessidade de se reduzir o consumo de água. Vale lembrar que cabe ao hóspede ter consciência e tomar banhos curtos.

As notícias

Desde o último trimestre de 2018, as restrições ao uso de água vem sendo relaxadas aos poucos. Em 1º de dezembro, as limitações mudaram para o nível 3, segundo o qual cada pessoa deve consumir até 105 litros por dia. A primeira alteração do tipo ocorrera em outubro, quando esse limite havia subido de 50 para 70 litros.

Clique neste link da Prefeitura de Cape Town para acompanhar os níveis dos reservatórios.

Cape Town virou cenário de “Mad Max”?

Não. No auge da crise, em fevereiro de 2018, a professora de idiomas Fernanda van Biljon, disse que a população estava preocupada, mas não existia o cenário de pânico e terror que as matérias davam a entender.

Já o foco no Dia Zero, e não nas ações, foi criticado pelo CEO da South African Tourism, Sisa Ntshona, em um evento realizado em 2 de fevereiro na Cidade do Cabo. O encontro reuniu cerca de 600 membros do setor do Turismo e discutiu a questão da água em Cape Town.

“A expressão ‘Dia Zero’ causa histeria e pânico. Faz com que as pessoas se perguntem se haverá coisas como uma guerra civil em Cape Town”, afirmou.

“O setor do Turismo está sob um tremendo ataque. Como em qualquer negócio, a primeira coisa a se fazer é proteger seus clientes. Você vai até eles e diz: a) ainda estamos abertos para negócios; b) o nível dos serviços será mantido”, completou.

Assista à apresentação completa de Ntshona:

Dia Zero

Muita, muita calma nessa hora. É importante ressaltar que o Day Zero não representaria a total falta d’água em Cape Town. Trata-se da hipotética data na qual o nível dos reservatórios ficaria abaixo de 13,5%. Nela, a maioria das torneiras seria fechada e os moradores teriam que realizar a coleta em 200 pontos espalhados pela cidade.

Se acaso a situação chegasse a esse ponto, a Prefeitura colocaria em ação o plano que ela elaborou. Você pode conhecer seus detalhes neste documento (formato pdf).

Em março de 2018, veio a primeira boa notícia: a Prefeitura afirmou que os números relativos ao consumo estavam melhorando. Com isso, a possibilidade de haver um “Dia Z” no ano passado fora descartada. Coincidentemente, o anúncio veio após o fim de uma crise que poderia resultar no afastamento da então prefeita. Mas isso é uma outra história.

Para 2019

No fim de junho de 2018, os governantes anunciaram uma outra boa notícia: estava descartada a possibilidade de o “Dia Zero” ocorrer em 2019. Com a manutenção do consumo inteligente de água, a Prefeitura até sinalizou com um possível relaxamento nas restrições. Ok, o anúncio foi feito após uma nova vitória da prefeita na Justiça, mas sigamos adiante.

Uma nota oficial assinada pelo vice-prefeito da Cidade do Cabo, Alderman Ian Neilson, revelou detalhes sobre a questão da água. A seguir, os principais pontos do comunicado divulgado em 27 de junho:

– No começo do inverno de 2018, os níveis dos reservatórios estão em condições muito melhores do que no final do inverno de 2017.

– A Administração da Cidade do Cabo está confiante de que não haverá perspectiva de um Dia Zero em 2019, desde que o consumo inteligente de água seja mantido.

– A Prefeitura espera reduzir em um futuro próximo as restrições no consumo de água.

– Os níveis dos reservatórios têm subido de forma consistente e significante durante as últimas seis semanas. No final de junho, atingiram a capacidade de 43%, restando ainda dois meses da temporada de chuvas.

– Desde maio de 2018, o volume de chuva que cai na região do Cabo está próximo da média. E a tendência é que a situação dos reservatórios esteja bem melhor no final do inverno.

Tomando banho

Essa situação exige mudanças na rotina, mas não é o fim do mundo. No caso dos brasileiros, obviamente, o hábito de tomar vários banhos por dia precisa ser revisto.

“Apesar de a Prefeitura ainda não ter implementado racionamento de água, estamos todos seguindo as recomendações de consumo diário. Tomamos apenas um banho por dia, e com duração aproximada de 2 minutos”, contou em fevereiro de 2018 Saul Pires, um brasileiro sortudo que tem a vista da Table Mountain da sua casa.

Já para as mulheres que precisam lavar o cabelo, calma, que tem jeito!

“O banho é tranquilo, mas quando lavo meu cabelo complica. Tenho um cabelão. Preciso ligar e desligar o chuveiro toda hora”, disse Fernanda.

Água de beber

Nas duas semanas que passei em Cape Town, não encontrei nenhum problema para comprar água mineral nos supermercados.

Água de reaproveitar

A necessidade de economizar água em Cape Town não significa que as plantas de casa devam morrer ressecadas. Basta seguir as dicas da Fernanda.

“Eu rego a minha planta com a água que pego do chuveiro. Sabe quando a gente tá esperando a água esquentar e tem aquela primeira ducha que a gente não entra? Eu boto um balde pra água não ser desperdiçada. Daí, com essa água, eu faço limpeza, molho plantas, etc”, disse.

Outra coisa que muda nessa situação é a relação com os chamados da natureza. Em caso de número um (o xixi), nada de descarga. Quando for um caso de número dois, a orientação é acioná-la uma vez por dia. Ou aproveitar os baldes da sua reserva de “gray water” – como a que é colhida no banho.

Engajamento

Sei que o papel do Sisa Ntshona é defender seu produto, mas, sinceramente, acho sua abordagem interessante. Naquele evento em Cape Town, o CEO da South African Tourism também declarou que chegara “o momento de parar de contemplar o problema e ser parte da solução”. Ao que parece, a população comprou a briga e vem alterando seus hábitos nos últimos meses.

Por sinal, o engajamento na economia de água em Cape Town causou até um entrevero virtual entre vizinhos, segundo a Fernanda.

“Um amigo meu daqui postou no Facebook sobre a vizinha que estava molhando o jardim com mangueira. Deu uma briguinha virtual. Mas isso foi há uns três, quatro meses. Não sei se talvez agora essa vizinha tenha finalmente se conscientizado”, contou.

E os turistas com isso?

Nas conversas com a Fernanda e o Saul, notei que ambos estavam preocupados com o nível de conscientização dos turistas que estão para chegar. Acredito que boa parte dos moradores também compartilhe desse receio. Algo natural. Afinal, o aeroporto da cidade registrou mais de 5 milhões de chegadas em 2017, segundo o relatório anual da Cape Town Tourism.

Já a Agência de Promoção de Turismo, Comércio e Investimentos de Cape Town e Western Cape (Wesgro) assegurou que a presença dos visitantes não vai atrapalhar. Pelo contrário, a ausência de turistas só pioraria o problema.

Precisamos do turismo mais do que nunca. Assim, nossa economia continuará crescendo e empregos serão gerados durante este período desafiador”, disse a nota publicada no site da Wesgro.

Ainda segundo a agência, a presença de turistas estrangeiros “representa um aumento de apenas 1% na população da província de Western Cape” – onde fica Cape Town. Além disso, o setor hoteleiro vem se destacando na redução do consumo de água, incentivando os hóspedes a “economizarem como os locais”.

Entre as várias razões que a Wesgro enumerou para que os viajantes não mudem de planos, estão os números da economia local. Segundo a entidade, a indústria do Turismo gera cerca de 300 mil empregos e injeta por volta de 40 bilhões de rand (cerca de R$ 11 bilhões).

Hostels

Nas duas semanas em que fiquei hospedado no Never at Home, não tive problemas com água. O hostel localizado em Green Point, por sinal, espalhou por todos os cantos mensagens incentivando o consumo inteligente de água.

A maioria desses quadros contava com textos bem-humorados, como “economize água, beba vinho, cerveja, vodka e whisky”.

Hotéis

Em seu comunicado, a Wesgro destacou o esforço da maior rede de hotéis da região, a Tsogo Sun, que teria reduzido o consumo em 40%.

Por sua vez, o luxuoso One&Only – lar dos badalados restaurantes Reuben’s e Nobu – tem feito o possível para minimizar o impacto da crise nos hóspedes. Tratamentos em banheiras deixaram de ser oferecidos no spa, e roupas de banho e cama passaram a ser trocados a cada três dias (ao invés de diariamente). De quebra, os sistemas de ar condicionado passaram por uma revisão para reduzir o desperdício de água.

Segundo a nota que sua assessoria no Brasil me enviou, “tanto o concierge como toda a equipe do One&Only estão oferecendo informações e atividades para engajar os visitantes na importante missão de economizar água e a resposta tem sido positiva por parte dos hóspedes para contornar a crise da melhor forma possível”.

Vô/Num vô

Durante a crise, eu mantive minha opinião de que as pessoas não deveriam cancelar as viagens. Hoje, a situação está bem melhor e estável. Portanto, não há nada que te impeça de viajar. Sem falar que a falta de turistas causaria um estrago bem significativo na economia local.

Veja o que disseram os brasileiros que moram em Cape Town:

SAUL PIRES: “Venha, aproveite, divirta-se, mas, por favor, mantenha a consciência de que 4 milhões de pessoas precisam desse recurso”.

FERNANDA VON BIJON: “Tenham consciência de que a economia DEVE ser feita. Deve haver um pensamento coletivo e a colaboração.”

Como acompanhar a questão da água em Cape Town

– Entre as fontes de informação fundamentais para a crise da água em Cape Town, o artigo da Adriana Setti é obrigatório. Além de ser o melhor texto que encontrei sobre a situação, conta com um manual de boas práticas para enfrentar a seca.

– O Twitter do CEO da South African Tourism, Sisa Ntshona, traz novidades sobre as iniciativas que o setor do Turismo vem tomando para lidar com a crise.

– Às vezes, as redes sociais da Prefeitura de Cape Town fazem posts com mais histeria do que informações claras. No entanto, é através dos seus canais que você acessa em primeira mão as notícias sobre as medidas para evitar o suposto Dia Zero. Siga o Twitter e acompanhe a página do Facebook.

– Plano para o Dia Z: confira aqui o documento que detalha como a cidade se preparou para o pior.

– Painel da crise: neste link, você tem acesso aos números fornecidos pela Prefeitura, como nível dos reservatórios. Acho complicado confiar em uma fonte só, mas é o que tem pra hoje…

– A Wesgro está bem engajada em manter em alta o Turismo de Cape Town e arredores durante este período complicado. Recomendo o Twitter e o site oficial.

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3 comentários

  1. Ola, muito boa matéria. A unica coisa que tenho a curiosidade de saber é o custo da água, o quanto uma família paga mensalmente e se o sistema de cobrança é igual ao Brasil.

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