Interação com filhotes de animais na África do Sul: É hora de parar?

Em uma entrevista com o CEO da South African Tourism, Sisa Ntshona, percebi que a interação com filhotes de animais é uma questão de difícil solução para as autoridades do país. Especialmente, num momento em que se investe tanto na sua promoção desse destino e na construção de uma marca.

O órgão de Turismo da África do Sul mostra preocupação com a moda das fotos com filhotes de animais

Se for forçado, não vale a pena. Caso algo implique na aporrinhação de alguém, melhor evitar. Vale para relacionamentos e para interações com animais. Não faço o papel de fiscal da natureza, patrulhando publicações alheias com filhotes de leão. No entanto, achei que valia a pena fazer um post sobre isso após ouvir a gravação da entrevista coletiva que o CEO da South African Tourism, Sisa Ntshona, concedeu a jornalistas brasileiros na Indaba 2017, em Durban.

No papo com nosso grupo, Ntshona falou abertamente sobre essas práticas tão populares quanto controversas. Segundo o chefão do Turismo sul-africano, há, de fato, um problema. E a mudança de mentalidade dos viajantes é a parte crucial na solução.

“Nessa questão, o maior poder está com o consumidor. Se não há demanda, não vai acontecer mais. E como se mata essa demanda? Educando as pessoas. Fazendo com que elas entendam que não é bom acariciar um filhote de felino por causa de todo impacto que isso gera”, afirmou.

“Nessa questão, o maior poder está com o consumidor. Se não há demanda, não vai acontecer mais.” (Sisa Ntshona, CEO da South African Tourism)

Entre as pessoas que me procuram por DM ou e-mail, várias mostram interesse em tirar fotos segurando pequenos leões ou guepardos. Por isso, me chamou a atenção o fato de o CEO se posicionar contra algo tão popular. De acordo com Ntshona, a tendência é que tais práticas sejam ilegais no futuro.

“As interações, os carinhos em filhotes parecem fofos. Entretanto, é preciso pensar em algumas questões. O que vai acontecer com o animal depois? Quantas pessoas vão tocá-lo? Ele começa a perder seus instintos e a capacidade de viver sozinho no ambiente selvagem. Precisamos informar e educar”, explicou.

Novos conceitos

Nunca tive gato ou cachorro. Só passei a ligar um pouco para animais depois da primeira viagem à África do Sul, em 2011. Mergulhar com tubarão-branco, avistar baleias e tocar num elefante que passeava livre no Knysna Elephant Park foram experiências que me cativaram.

A mais significativa – e incômoda -, entretanto, foi numa fazenda de avestruzes em Oudtshoorn. No momento em que montei numa ave e posei para uma foto, me achei bem ridículo. Aparentemente, era a única pessoa constrangida no recinto. A partir daí, vi que essas interações não eram a minha praia.

Hoje, procuro não postar imagens desses encontros nas redes do Bastante Sotaque. Não esculacho quem faz, mas também não promovo essas atrações. E até ando revendo meu conceito sobre o shark diving – uma atividade que curti, admito.

Pela conversa com Sisa Ntshona, entendi que o objetivo deles é tornar o respeito aos animais algo tão discutido quanto questões como o uso de energias renováveis.  Especialmente, num momento em que o país investe pesado no turismo e inicia a construção de uma marca.

“De um lado, precisamos fazer um trabalho de conscientização com os operadores dessas atividades. Porém, o movimento mais importante é informar e educar o público consumidor. É uma questão semelhante à da poluição e dos recursos hídricos. Algumas pessoas, quando chegam a um hotel, fazem perguntas sobre o uso de energia solar no estabelecimento. Perguntam se reciclam água. Nosso desafio é fazer as pessoas terem empatia pelas práticas responsáveis de turismo”, afirmou.

Onde não aporrinhar animais

Não sou o Capitão Planeta nem um engajadão pelos animais nas redes sociais. Entretanto, posso recomendar algumas atividades em que cada um fica no seu quadrado. Ou quase isso.

SAFÁRI

Durante um game drive, quem fica livre é o animal. Caso ele se incomode com as visitas, vai para o meio da vegetação sem cerimônia, e vida que segue. Confira os posts sobre os safáris que fiz no Kruger National Park e no Hluhluwe iMfolozi Park.

(Clique nas imagens para ampliá-las)

ELEFANTES

Já fui duas vezes ao Knysna Elephant Park, onde fazem um ótimo trabalho com elefantes resgatados em vários lugares da África. As instalações onde Sally e sua família dormem parecem dignas, e os animais têm um campo enorme para passear o dia todo.

Sempre optei pelos daily tours, que partem da recepção a cada meia hora e não necessitam de reserva. Já a “back ride”, na qual você monta no animal por cerca de 30 minutos, nunca me atraiu. Não acho legal.

FOCAS

Na viagem de 2014, meu shark diving foi cancelado pelas condições do mar em Gansbaai. Dias depois, fiz o seal snorkeling em Cape Town, e a ausência do mergulho com tubarões não foi sentida.

A atividade é operada em Hout Bay pela Animal Ocean. Comandados pelo biólogo Steve Benjamin, os passeios me agradaram porque são muito seguros e – o principal – não aporrinham as Cape fur seals. O grupo se posiciona perto da Duiker Island, em uma área delimitada por bóias. É mais observação do que interação: basicamente, você fica na superfície e vê os animais passando muito rápido lá embaixo.

O blog viajou em maio/2017 a convite do Turismo Oficial da África do Sul e da South African Airways

Veja também:

Seal snorkeling: Mergulho com focas em Cape Town, África do Sul

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4 comentários

  1. Ótimo post! Acabei de voltar da África do Sul e a única “interação” que tive com os animais foi durante o Safari no Kruger e na Boulders Beach. Optei por não ir ao Lions Park e nadar com tubarões justamente por não concordar com essas práticas. É preciso conscientizar as pessoas que o bem estar dos animais vale mais do que qualquer foto ou selfie. Por mais turismo responsável, especialmente em um País tão rico no contato com a natureza como a África do Sul.

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